E então, para onde é que estamos indo? Será que eles sabem para onde é que estamos indo? Ou apenas em frente, como eu e um pouco ao contrário de mim? Eu ando para frente porque não posso dar meia volta com a vida, mas às vezes andando para frente tenho impressão de que estou andando para trás, então eu paro e fico olhando para os lados. Alguém que já observara um pião a girar, por muito tempo a rodopiar, esta pessoa entenderia do que falo. Ele gira e gira para um lado, e de repente, na mesma velocidade, parece que gira e gira para o outro. Assim, sem nenhuma pausa. E eu fico meio tonta, perdendo um pouco a noção do espaço, ilusão de ótica, chama-se. Será que o pião se sentiria um pouco assim se sentisse alguma coisa?
Quanto tempo faz? Quanto tempo faz que não vem até aqui?! perguntam-me, mas quase não posso ouvi-los. Parecem algum ruído incômodo da televisão que está ligada enquanto tento ler. Não estou lendo, mas estou olhando. Meus olhos estão nesta subida ao meu lado, correndo por entre as árvores e tentando me acompanhar.
Sim, faz muito tempo que não venho. Na verdade, não me lembro de ter vindo antes. Mas me abstenho de responder, anulo minha resposta porque a pergunta já passou do tempo de ser respondida. Não sei o que define o tempo máximo, mas já decorei o tempo das pessoas como se decora o momento em que a voz do vocalista entra junto do instrumental. Às vezes erro. Então me abstenho de responder.
Sugo com o olfato minha cidade natal sem nenhuma saudade. Agora tenho certeza, não estive aqui. Nunca andei por este bosque e nem por este parque, porque não gostava de parques. O cheiro fresco do eucalipto me refresca a memória: uma mulher havia morrido quando eu era criança. Noticiava-se que se jogara no lago. Estava louca e se jogara no lago.
Antipatizo com as águas que se mexem pouco, essas tais águas paradas. Acho que são de uma monotonia cruel e fecho os meus olhos. Seria este o motivo de às vezes antipatizar um pouco comigo? Nunca vim ao parque e não subirei até a plataforma para olhar a água mórbida. Estreito os olhos porque os meus pés estão eriçando a terra seca, e enxergo o mundo como que por trás de vidros fumê. Aquela imensidão de árvores gigantes, todas iguais, parecem que pálidas guardam toda a tristeza do mundo.
Uma vez pensei que estava louca. Minha avó costumava dizer que “louco” significa “prisioneiro do inferno”. Eu não acreditava em inferno, mas acreditava na imensidão das coisas. As coisas são imensas de tão profundas. Mesmo quando somos pequenos, somos de uma profundidade que o nosso corpo não representa. Somos tão grandes que cabemos dentro de nós próprios quantas vezes quisermos entrar lá: uma sala que abriga uma porta com uma cortina, que abriga outra sala com outra porta e outra cortina e assim por diante. Em que espaço do mundo isso está?
Eles seguem em direção à plataforma, eu sento num banco verde e as árvores gêmeas ficam ali mais adiante. Existe outra espécie delas perto de mim. As crianças brincam nos balanços amarelos e eu inclino um pouco o rosto para cima aspirando o ar. Coleto o sol, que brilha levezinho nas minhas pálpebras fechadas. O sol está delicado, cheio de dedos para encostar em mim, e relaxo apenas por alguns segundos. Logo me coço. Não me coço toda e também não me coço nalgum lugar específico. É como o toque de um fio de cabelo que não se sabe onde está, mas que, inconveniente, é capaz de exasperar.
Reconheci.
É uma coceira de memória. Existe alguma coisa que deixei para trás. Perdi alguma coisa, e vou procurando o que era, cortinas adentro de mim. Era sobre a loucura?
Não, não sinto mais que sou assim. As coisas do mundo são imensas, enxerguei certa vez que não era de se desesperar sentir certa estranheza perante a elas. Mas às vezes tenho pensamentos não compartilháveis, como certa vez que vi um bicho verde: que nem grilo era, nem louva-deus nem gafanhoto. Por que eu não poderia ser um desses? Como esses bichinhos-de-lâmpada que não chamamos de moscas e nem de mosquitos?
Um galho desce da árvore e encosta áspero em meu ouvido. Ai que agonia! e abro os meus olhos e o galho não está lá. Vou um pouco para o lado no banco e sinto que o farfalhar da árvore vai junto comigo. Em minha frente o balanço, e nos seus mastros a escritura “tu come eucalipto?”. Não, não como eucaliptos. Mas gosto deles, acho que são tristes e imensos também. E fecho meus olhos.
Está ventando e as folhas me banham, me acariciam os cabelos, me coçam naquela coceira de memória. As crianças foram embora deixando os balanços a sacudirem freneticamente empolgados, como uma pessoa ansiosa com as pernas inquietas. Estão esperando o acontecimento que o vento anuncia, se tornando cada vez mais forte e fazendo a areia cortar o meu rosto.
Espero ali coberta pelo céu cinza, espero as pessoas que estavam comigo enquanto observo o pontinho preto caminhando por cima do banco. Quantos passos de uma formiga são necessários para compor a distância de um passo meu? Sinto esse vício de insetos, porque os temo. Não que encostem em mim, mas temo a insignificância de sua pequenez. Quando os observo, pequenos, fazendo sua colheita, viro toda compaixão. O vento carrega este miúdo grão de vida para longe e eu, que nada tenho a ver com ele, sinto que esse gesto foi para me insultar.
Estão zombando de mim!
O galho da árvore cai para me assustar. E me dou conta de que posso ser varrida também.
Estão zombando de mim!
E saio correndo pelo caminho que nos trouxe, sem encontrar nenhum dos meus por lá. Deixo as árvores desabando por trás, com seus sons estridentes, enquanto as da frente esperam minha chegada para desabar. Não consigo respirar tão rápido quanto pede o meu coração, mas não posso parar. Eucaliptos imensos aqui, na sua presença em matéria, e não porque são profundos em algum lugar do mundo que ninguém sabe onde está. Eles podem me esmagar. Sinto-me assim, graveto.
Desço correndo todo o caminho meio cega, ofegante por inteiro. Alcanço o asfalto, o meio da rua, e não sei o que houve. Os olhos do taxista refletem o terror dos meus. Ele está divinamente tranquilo em sua postura, e me observa enquanto dirige, apático, como se estivesse participando desta grande brincadeira e nada daquilo pudesse atingi-lo como pode atingir a mim. A tempestade cessa enquanto estamos voltando, sinto medo de que ele não destrave a porta. Mas ele destrava.
Onde estão todos?! digo, enquanto observo que eles não estão junto a mesa com a minha família. Onde estão os meus amigos?! E todos os pares de olhos presentes me encaram gélidos, como se não pudessem compreender o que eu digo.
Sinto-me como se tivesse começado a cantar a música antes da hora. Sou um peixe fora d’água e estou me debatendo. As pessoas me olham perplexas. Elas não fazem nada. Fico parada lhes encarando de volta e, enquanto os meus olhos umedecem, os outros se tornam aflitos como se o gelo estivesse derretendo, mas permanecem em sua mudez.
Será que tem alguma coisa em mim? E tateio meu rosto, tentando buscar na memória já esmaecida daquela casa, onde é que ficavam os espelhos.
Todos, querida?! minha mãe pergunta, com a voz mansa e cínica, de uma compaixão que afaga minha coceira. Alguma coisa havia se perdido. É a mesma compaixão que eu tenho para com os insetos. Olho para ela desconfiada, enquanto todos os rostos se entreolham com o começo de um sorriso fechado no rosto.
Me abstenho de responder.
Estão zombando de mim!
As mãos dela afagam o meu rosto com uma bondade quase ofensiva.
Sonho acordada: estou num lago. O sol está brilhante e baixo, banhando as águas hostis e quase indo embora. Às vezes sou como elástico, as águas me contam. Enquanto recitam Edith: Padam padam padam!
Talvez estejam erradas. Não sou elástico, sou linha. Não sou capaz de me esticar.
Vá se deitar, querida! o sorriso bondoso dos lábios dela me insulta, me abstenho de responder.
"Não há razão para não chorares, com as tuas lembranças nos braços."
"Não há razão para não chorares, com as tuas lembranças nos braços."


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