15.3.15

   Ele ficara no quarto esperando sua vez no chuveiro. Lorena estava por fora do box fechado, em frente a privada, semi-nua e sentada no chão. Abrira o chuveiro sem eletricidade e ali estava encolhida sobre o tapetinho cinza. 
   A umidade entre suas pernas estava morna. Ela sentia vontade de chorar. Era isso que estava lhe ocorrendo nas últimas vezes, contorcia-se em orgasmo e então, como se algum sentimento tomasse carona no coração de pulso acelerado, os olhos se enchiam d'agua. 
    Não existia nenhum erro entre as outras pessoas e ela própria ou no ato em si mas, logo após, dirigia-se apressada para o banheiro. Esse peso! Seu corpo anguloso atirado no chão de um banheiro. Ah, ela não precisava daquilo! Estava tudo bem...mas o quê? O quê?
    Levantara-se olhando para o espelho, sentia pena de si própria. Pobre coitada dela, chorando no banheiro azulado e sozinha! Encarando seu rosto inchado despiu-se. Sentia daquela forma, com o rosto inchado e nua, certa sensualidade em si. Enchia-se assim de amor próprio e, ao mesmo tempo, perdia-o todo, tal como os pulmões fazem na sequência com o oxigênio. Se estava ali, endeliciando-se toda de si, venerando a própria tristeza como componente belo e inquietantemente poético, onde estava a poesia? Então, por que é que ninguém ia até lá para salvá-la? Por que é que ninguém a descrevia, assim, tal como era naquele instante, para que vista em terceira pessoa ela sucumbisse todo o terror?  E sofria  assim de seu amor próprio.
    Passara a mão por entre as pernas e sentira ainda uma fisgada de prazer resultada do prazer anterior. Sentira a existência. O corpo exercendo peso sobre o chão, o toque incômodo nos nervos cansados pedindo pausa. Existia, sim, existia. Que outro motivo maior do que este precisaria haver  para que  ela se sentisse só?
   Mais tarde, o rapaz saindo do banheiro encontrou-a sentada em uma cadeira em frente a janela. Tudo estava um tanto escuro, e ela lúgubre, de expressão ressentida no cenho, sendo mordiscada com muito cuidado pelos resquícios do sol. Os lábios pressionados, as sobrancelhas juntadas pelo músculo da fronte, indelicada costurava alguns fios em sua peruca como quem quisesse se machucar.
    -O que foi? ele perguntou.
    Levando um dos pés para cima da cadeira, passando a agulha que brandia nos dedos para a boca, encaixou a peruca no joelho, ajeitando-se.
    -O que foi? ele repetiu.
   Ela parou o que estava fazendo. Então, como se o dia estivesse demasiado frio e ela fosse a única pessoa a ter agasalhos para ele, prestes a recusar, como se estivesse assim prestes a recusar, ela olhou para ele.
   Ele esperou.
  -Estou cansada.
   A expressão ressentida tornou-se ainda mais a outra. Os olhos estreitaram-se muito levemente. Estava sentindo prazer em vê-lo se contorcer com o frio. 
   Ele apenas sustentou o olhar. Era um modo cruel de sentir-se triste. Ela às vezes se tornava irremediavelmente trágica até que ele se sentisse culpado. Não poderia descrevê-la. Não faria dela poesia, pois ela ardia naquele humor. ardia tanto e sem nenhuma glória,
    Não saciava-lhe a sede, o orgasmo era pouco, era raso, jamais o suficiente. Ela queria mais: a descrição do orgasmo.  Humana que era, queria ser mais que do que humana.  Porém, nada consciente de toda sua ambição, ela apenas sabia que queria ser salva.
    Não sabia do quê.
  -Está com fome? ele perguntou.
  -Não sei, um pouco. ela respondeu.
  -Vou fazer alguma coisa pra nós. sorriu de lábios fechados, quase imperceptível, e virou as costas.

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