Tu que é tão bonita em dorso, ossos e tendões, sorriu como que um sorriso sem dentes, sem boca, sem lábios, sem sorriso algum. Eu, desbaratinado, percebi ter visto esta mesma cena em algum pesadelo maldito em que talvez tu tenha me assombrado. Como se sem estômago, sem sangue, sem íris nos olhos.
Como que quase de cera, como que no escuro debaixo da minha cama puxando meus lençóis.
E agora tu me sorri da mesma forma dissimulada, fingida, não beirando nem mesmo a forma mentirosa. Eu sorrio também.
Esperamos ansiosamente poder faltar um com o outro durante todo o tempo em que nos encontramos juntos. Jamais nos aproximaremos mais do que um centímetro, e o teu sorriso de trinta toneladas vai preencher essa distância fazendo diminuir e depois aumentar.
Tu, um grande deboche nascido em carne, é uma catástrofe não agendada derrubando minha porta.
Tu, entre curvas e risadas inteiramente descabidas, se comporta como poeira mal varrida em cima da minha cama. Como que rodopiando, como que incomodando, como se eu nunca fosse saber de onde pode ter vindo e pra onde está indo.
Vive na minha casa bagunçada, na troca do tu não andar comigo o caminho da porta até o elevador e do eu não te dar carona até o metrô, na busca tão obcecada da liberdade que a mesma se iguala às paredes do casulo de onde tu parece ser vinda.
Eu me obrigo deste jeito a te ver como nunca antes, como que sem dorso, como que sem ossos, como que sem tendões - como que só o sorriso maldito.
Mayte Cristine [9:09 PM]


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